Reflexões

Figo QA e Sara Teixeira

Os cavalos não são ferramentas nem objetos descartáveis

Há uma coisa que me custa profundamente na equitação.

A facilidade com que, às vezes, se esquece que o cavalo sente.

Sente o peso.
Sente a tensão.
Sente a frustração humana.
Sente quando é ouvido…
e sente ainda mais quando não é.

Muitas vezes fala-se dos cavalos apenas pelo que fazem.
“Este salta.”
“Este dá para ensino.”
“Este é complicado.”
“Este já não serve.”

Já não serve.

Como se fosse um objeto.
Como se o valor de um cavalo dependesse apenas daquilo que consegue oferecer ao ser humano.

E a verdade é que alguns cavalos passam anos inteiros a tentar adaptar-se às nossas exigências sem que ninguém pergunte se estão bem no meio disso tudo.

Nem toda a resistência é maldade.
Nem toda a explosão é feitio.
Nem todo o silêncio é tranquilidade.

Há cavalos que deixam simplesmente de se expressar porque aprenderam que ninguém os ouve.

E isso parte-me o coração.

Porque a equitação nunca deveria ser sobre dominar até o cavalo deixar de reagir.
Deveria ser sobre construir um lugar onde ele se sente seguro para comunicar.

Um cavalo não é descartável porque ficou difícil.
Não é inútil porque precisa de tempo.
Não vale menos porque traz traumas.
Não merece menos paciência porque não aprende à velocidade que queremos.

Às vezes esquecemo-nos que eles carregam-nos mesmo quando nós ainda não aprendemos a carregá-los emocionalmente da forma certa.

E talvez a verdadeira evolução na equitação não esteja em movimentos maiores, provas melhores ou resultados mais rápidos.

Talvez esteja na forma como olhamos para o cavalo.

Na capacidade de parar e perguntar:
“Será que ele está confortável?”
“Será que ele me compreende?”
“Será que eu o estou realmente a ouvir?”

Porque no fim…
os cavalos nunca serão ferramentas.

São parceiros.
São seres vivos.
São coração.

E merecem ser tratados como tal